Mensagem do Superior Geral do Sodalício ao iniciar o novo ano de 2016

Mensaje

Lima, 15/01/16 (Família Sodálite Notícias – Redação central). Ao iniciar o novo ano de 2016 o Superior Geral, Alessandro Moroni Llabrés, dirigiu uma extensa mensagem aos integrantes do Sodalício, que quis compartilhar com os membros de sua família espiritual.

Queridos irmãos e irmãs da Família Sodálite:

Recebam uma saudação muito fraterna no Senhor Jesus e em Maria, nossa Mãe.

Há alguns dias enviei uma mensagem a todos os sodálites compartilhando com eles umas reflexões no intuito de oferecer um primeiro patamar de compreensão que ajude a iluminar o momento doloroso que estamos vivendo e aproximar-nos da melhor maneira possível da etapa de revisão, reconciliação e renovação que iniciamos como comunidade.

Pareceu-me importante compartilhar também com todos e com cada um de vocês estes pensamentos que nascem da oração, do diálogo e do conselho de muita gente boa, porque os considero verdadeiramente minha família, compartilhamos um peregrinar e um chamado, e temos que avançar juntos. Comove-me vê-los sofrer, mas também me edifica sua firmeza na fé e o alento que nos expressam de muitas maneiras.

Nestas singelas idéias procuro alentar, antes de tudo, a que centremos nosso olhar no Senhor e nos apoiemos em uma vida espiritual sólida. A que sigamos cultivando a humildade, para ver a realidade com os olhos de Deus, e assim entender realidades misteriosas, dolorosas, mas também para olhar de maneira renovada a grandeza de nosso chamado e a generosidade com que Deus continua nos abençoando.

Temos que avançar juntos. Peço à Virgem que nos leve pela mão.

Que Deus os abençoe,
Sandro

Mensagem do
Superior Geral do Sodalício de Vida Cristã
ao iniciar o novo ano de 2016

Lima, 4 de janeiro de 2016

Queridos irmãos e amigos todos no Senhor:

Iniciamos este ano de 2016 de mãos dadas com Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe. Ela nos mostra o caminho para nos dirigirmos para o Senhor Jesus. E por mais que estas palavras possam soar batidas, porque as repeti muitas vezes, estou convencido de que para cruzar o limiar deste novo tempo deve haver um fundamento sólido de vida espiritual. Se não houver uma vida espiritual adequada logo logo nos perderemos, muito facilmente.

Só a partir de sua vida espiritual real e intensa podemos entender como nossa Mãe pode ter a docilidade para acolher os caminhos de Deus que são sempre misteriosos. Ela, depois de escutar a saudação angélica e a proposta de Deus para a encarnação do Verbo Eterno em seu seio, responde com uma simplicidade e generosidade assombrosas. É a mesma humildade que expressa poeticamente no Magnificat depois que escuta dos lábios de Isabel: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto de teu ventre» (Lc 1,42). Maria nos dá a chave: só quem tem Deus como centro de sua vida pode aproximar-se dos mistérios que a vida mesma não se cansa de nos apresentar.

Os eventos e o que Deus permite sempre serão, até certo ponto, ininteligíveis para nós. Por isso a bússola da existência deve estar sustentada por um fundo espiritual realmente intenso, que alimente nossa fé. E uma das coisas que descubro de maneira muito profunda é que essa terra, esse “húmus” espiritual, não esteve suficientemente preparado em nossa comunidade.

Somos muitas vezes como esses discípulos de Emaús (ver Lc 24,13-35) que partimos tristes pelo caminho, com o coração embotado pela experiência da paixão, da dor, das expectativas frustradas, com a vista nublada. E deixamos de ver como o Senhor Jesus nos acompanha pelo caminho. Os discípulos vão saindo da bruma na medida em que se vão abrindo ao contato com a Palavra de Deus. Isso é chave: o contato com a Palavra. Devemos todos os dias ler e meditar a Palavra, deixando que ela aja pouco a pouco em nosso interior. Essa Palavra irá preparando a terra de nosso coração para que a fé cresça e se torne robusta. A Palavra é que vai capacitando para que possamos reconhecer o Senhor em todas as circunstâncias: no irmão que sofre, na dor e no desconcerto que nos rodeia, nas dúvidas e desconfianças que muitas vezes nos atormentam. Ela nos prepara de maneira especial para reconhecê-lo na Eucaristia: aí Jesus mesmo se entrega a mim como alimento, nutrindo com sua presença real meu coração e minha vida.

Por isso, como primeiro ponto quero uma vez mais insistir com vocês em que redobremos esforços por crescer em nossa vida espiritual. Permitamos que se vá forjando em nós um olhar que consegue ver Deus no meio das circunstâncias da vida. Esse olhar espiritual crescerá em nossa oração, pessoal e comunitária, que lhes peço cultivemos com particular dedicação neste tempo.

Como segundo ponto devemos aprofundar e viver a virtude da humildade. É algo que me preocupou desde que sou Superior geral, e por isso volto a compartilhar com vocês partes de uma carta de 2014:

Não são poucas as vezes que em nossa própria vida medimos as coisas entre duas antinomias: o êxito vs. o fracasso. E certamente é legítimo tratar de avaliar nossos atos, de nos perguntar como vamos, mas não podemos nos aproximar de nós, da nossa vida espiritual, comunitária ou apostólica através de cânones que têm sabores redutivos e mundanos.

Quantas vezes escutei irmãos dizendo-se a si mesmos e a outros “está tudo dando certo pra mim” ou “nada dá certo pra mim”. A vida cristã é algo mais complexo que isto, e é no Senhor Jesus que verdadeiramente encontramos a medida das coisas e de nós mesmos..

Esta antinomia na vida (êxito-fracasso) soluciona-se vivendo e entendendo a humildade. Não devemos confundir a humildade com a modéstia, pois o modesto é o que conhece seu próprio valor e não ultrapassa seus limites; é consciente do que sabe e do que pode, não aparece mais sábio do que na verdade é. O modesto se “situa”, sabe o que lhe corresponde e o que não, por isso não pretende chegar onde não pode, nem vive de ilusões. O modesto sabe do que é capaz de fazer e o faz, não se limita. Quem vive a modéstia se situa adequadamente, é uma espécie de justo meio entre o que se crê o máximo e o que pensa que nada pode. A humildade é muito mais que isto.

A humildade não se situa em uma espécie de justo meio entre o êxito e o fracasso. Jesus foi humilde, e essa humildade se refletiu na vida de muitos Santos que a viveram de maneira exemplar. Santo Agostinho fala da humildade em algum de seus escritos como uma árvore que cresce para o alto porque ao mesmo tempo finca raízes profundas na terra. No peregrinar do santo de Hipona vemos como se dá ao longo de sua vida misérias e grandezas; como experimentou o pecado e a fraqueza, ao mesmo tempo que a proximidade e o amor de Deus que lhe oferecia a força para que no meio de suas lutas fosse aproximando-se cada vez mais dEle; como experimentou a maravilha de seu próprio chamado e vocação, que tal como o nosso, é totalmente imerecido e um dom de Deus.

Somos assim, e sempre o seremos, ao mesmo tempo grandes e miseráveis: dignos do amor maior, da maior reverência e cuidado, e portadores de misérias jamais imaginadas. Entre os opostos alegria-dor, grandeza-miséria, vai sendo tecida nossa história e a de nossa própria comunidade. Não podemos esquecer disso! Afastemo-nos de toda tentação puritana ou maniqueia que às vezes se infiltra em nós e nos faz um dano muito grande.

O Papa São João XXIII em seu livro “Diário da alma”, em um de seus pensamentos quando era seminarista em Roma (1903) diz: «nunca o homem é tão grande como quando está de joelhos». Nesse gesto simples de adoração expressamos quem somos e diante de quem estamos, na simplicidade desse ato mostramos o maravilhoso da vida, da existência, de Deus, frente ao qual nos prostramos. Esses joelhos tocando o solo são o que nos ajudam a fincar raízes para que a árvore de nossa existência se eleve para Deus. Quanto mais de joelhos, mais raízes, e quanto mais raízes, mais alta será a árvore. Frondosa e verde, e sob sua sombra muitos cansados encontrarão repouso, encontrarão a Deus. De joelhos todos os dias, de joelhos frente a Ele, de joelhos em nossos momentos fortes de oração diários, de joelhos diante de nossos irmãos para lhes lavar os pés, para servi-los e ajudá-los, eles são outros Cristo, de joelhos somos grandes, somos humildes, somos sodálites, somos homens de Deus.

É o gesto dos “homens de Deus” e por isso o sodálite que está chamado a ser um tem que viver desta grandeza. Quantas vezes aparece no Evangelho este gesto frente ao Senhor: Pedro, o leproso e tantos outros caíram de joelhos frente a Ele. Assim de joelhos descobrimos quem é Deus e quem somos nós, assim de joelhos expressamos a grandeza de quem nos chama, nossa identidade que é descoberta no encontro com Ele.

Obtemos a vitória pela humildade que Jesus nos mostra. O vitorioso é o humilde, o vitorioso é aquele que entra em Jerusalém sentado em um burrinho, em um asno, um animal de carga, simples, nobre. Não entra em um cavalo como os poderosos do mundo, com o animal que levava os conquistadores. Jesus nos quer conquistar com sua simplicidade, com sua humildade, com seu burrinho. O vitorioso e humilde é o que se conforma com Jesus, amando e servindo aos outros.
Não esqueçamos queridos irmãos e amigos, a vitória vai unida à humildade, a humildade nos faz entrar pelo caminho que leva à cruz e à páscoa. A humildade nos faz viver reconciliados, faz-nos capazes de conciliar o paradoxo que se dá em nossa vida de miséria e grandeza, de pecado e graça, faz-nos estar de joelhos para fincar profundas raízes e assim a árvore de nossa vida sodálite se elevará alto, segundo a medida de Deus.

Que a virtude da humildade seja fundamento para o difícil caminho espiritual deste tempo que vivemos, no qual Maria nos dá a mão e nos leva até o Senhor Jesus, crucificado e ressuscitado.

Esta nova etapa tem que estar marcada, pois, por uma profunda e sincera revisão. Nos ajudará muito deixar-nos animar pela exortação do Apóstolo São Paulo: «Examinem tudo e fiquem com o que é bom» (1Tes 5,21).

O “examinar” que devemos realizar neste momento de revisão não significa perder todo ponto de referência ou partir do zero. Nada se pode fazer sem Jesus e sem a verdade que Ele nos indica. Como muitas vezes repetimos, Ele é quem me mostra quem eu sou e à luz dEle e de seus caminhos (que não são os nossos) é que posso e devo examinar tudo: sem medo, com autêntica liberdade evangélica. Não é um questionar caprichoso e mirabolante, mas sim parte de uma identidade, pessoal e comunitária, bem ancorada em nosso Senhor.

Este “tudo” implica nos perguntar com total abertura evangélica: O que se passou entre nós?, por quê?, como permitimos isso? Sejamos capazes de olhar nossas faltas e pecados a partir da misericórdia de Deus, junto com a distinção de realidades históricas ou sociológicas das quais muitas vezes Deus pode ter-se valido, assim como também de aceitar que hoje, em muitos casos, podem ser expressões caducas que devem ser corrigidas. Não é fácil responder estas perguntas, e certamente não pretendo fazê-lo agora, mas quero convidá-los a assumirmos juntos este desafio. É uma tarefa pessoal e comunitária.

A verossimilhança de muitas das acusações que se tornaram públicas, somadas às investigações que me correspondeu fazer e que motivaram as medidas que lhes comuniquei no ano passado, levam-nos a reconhecer que historicamente Luis Fernando Figari é nosso fundador, mas que hoje não o podemos considerar um referencial espiritual. Por isso no diálogo que tivemos no dia 19 de dezembro disse-lhes o seguinte: «deu-se a disposição de tirar as fotos de Luis Fernando dos lugares públicos, páginas da Internet ou outros lugares onde se pudesse dar a entender que é um referencial espiritual. Essas fotos, colocadas como estavam, falavam que não só é nosso fundador historicamente, mas também era um referencial espiritual. Hoje claramente compreendemos que não se pode mais continuar a sê-lo. Ninguém lhe tira as contribuições, nem as coisas boas que possa ter feito, mas entendemos à luz de tudo o que aconteceu que essas fotos não devem estar aí. Por isso não só as fotos não devem estar nesses lugares, mas também seus textos não podem nem devem ser difundidos, nem ser mencionados em bate-papos, homilias, na formação e meditações. Isso não quer dizer que não haja elementos objetivos de verdade [em seus textos], e que privadamente possam ser usados, e que possam ser elemento de trabalho para a nova etapa que estamos vivendo. Mas deve-se entender que há uma contradição a tal ponto entre o que se diz e os elementos verossímeis hoje públicos que não se podem propor ou difundir. Não é uma incoerência qualquer como a de qualquer membro da Igreja que é pecador. Estamos falando do fundador, e como o entendíamos como referencial espiritual para a obra, mas que hoje não pode sê-lo mais».

Tenho já suficiente informação e clareza para dar este passo como Superior geral, embora seja consciente de que ainda estamos à espera de um pronunciamento da Santa Sé sobre este e outros assuntos vinculados. Temos que reconhecer também que, apesar de não ter tido conhecimento de muitas destas coisas, nem consciência da gravidade ou profundidade de suas incoerências, muitos fomos testemunhas de atitudes ou condutas dele que são alheias ao que uma pessoa consagrada, e mais ainda um fundador, deve testemunhar. E que por diversas razões — que vão da imaturidade, do respeito humano, a compreensão errada ou distorcida do que é um fundador e de sua importância para a vida de uma comunidade, e certamente outras mais — não soubemos reconhecer nem questionar a realidade, reagindo como era necessário. E tudo isso teve consequências de sofrimento para muitas pessoas.

Tudo isto nos enche de dor e desconcerto pois nos situa diante do mistério da iniquidade, mas também diante do mistério de que Deus possa usar instrumentos indignos para realizar suas obras. Um conhecido sacerdote especialista na teologia dos carismas diz: «O Espírito dá os carismas, mas quem os recebe pode instrumentalizá-los para sua vantagem e não exercitá-los segundo a vontade de Deus, mas isto não significa que o dom do Espírito em suas origens não tenha sido autêntico». Depois de fazer diversas referências à Sagrada Escritura e à Tradição da Igreja, diz também: «A gratia grátis data, excedendo as faculdades naturais e indo além dos méritos pessoais, não exige as disposições preliminares, e também um pecador pode recebê-la e não perdê-la por suas culpas. […] Santo Tomás diferencia quando uma graça gratuita vem dada junto com a graça santificante, para o benefício próprio de quem a recebe junto com o dos outros, produzindo amigos de Deus e profetas ao mesmo tempo; e quando uma graça vem dada para o bem de outros, por isso a pessoa é apenas instrumento de Deus». É algo que temos que aprofundar deixando-nos iluminar pela fé e os ensinamentos da Igreja.

Temos hoje também a tarefa fundamental de discernir os elementos autênticos do dom recebido no carisma Sodálite para poder pô-lo a serviço da edificação da Igreja e de sua missão, segundo o coração de Deus, procurando purificá-lo daqueles elementos que possam ser distorções próprias do caminho que percorremos. Algumas delas provirão das incoerências, pecados e distorções do fundador, como também haverá nossas próprias faltas e pecados pessoais. Para esta tarefa é indispensável a participação de todos, como também a ajuda dos pastores e de pessoas especializadas, mas, principalmente, procurar o auxílio de Deus e a guia de nossa Mãe.

Devemos abrir-nos à ação de Deus. Só assim poderemos reconhecer-nos como comunidade, e também cada um de nós de maneira pessoal, nossos próprios erros e pecados. Como comunidade e como apóstolos estamos chamados a servir às pessoas, a aproximá-las de Deus. Mas em ocasiões, em vez disso, causamos feridas, escândalo. Seguimos modelos do mundo em vez dos modelos do Evangelho, procurando ser eficazes, competitivos, exigentes, mas deixando de lado a humildade e a caridade. Priorizamos muitas vezes números, imagem e uma visão distorcida da missão apostólica — inclusive, da vocação como chamado amoroso de Deus —, esquecendo que a obra de Deus, seu Reino, cresce no pequeno e simples como um «grão de mostarda» (Mt 13,31).

Recebemos uma espiritualidade que é um dom precioso que Deus nos deu para que a ofereçamos ao mundo, mas tivemos atitudes ou práticas contrárias ao que ela inspira: faltas de reverência e de efetiva centralidade da pessoa; insuficiente integração da vida interior e com a vida ativa; insuficiente compreensão de nossa identidade como sodálites de plena disponibilidade apostólica, que em ocasiões deu lugar a uma aproximação acrítica ao mundo; controlismos que contradizem a confiança e o amadurecimento na liberdade que correspondem a uma visão antropológica eminentemente positiva, junto com voluntarismos que não refletem a consciência sobre a primazia da graça; os autoritarismos na vida comunitária e no apostolado que contradizem o espírito de serviço que é essencial ao nosso chamado. Deixamos que a soberba e a arrogância nos tornassem cegos a nossos enganos, surdos às correções fraternas e às reclamações legítimas de quem tenho ofendido ou prejudicado; permeáveis à absurda ideia de nos crermos “melhores” ou “especiais”, e isso nos levou a não poucas faltas de caridade.

Por isso, antes de tudo, devemos dirigir nosso pedido de perdão a todas as pessoas que sofreram por causa de nossas faltas e pecados, às vítimas de nossas incoerências com o Evangelho e com nosso chamado sodálite, a todos os que foram afetados direta ou indiretamente por nossas faltas de testemunho. Temos que assumir justamente o dever de reparar o dano que sofreram. Antes de tudo com nossa oração, também com o oferecimento de nossos esforços por nos convertermos cada vez mais, e especialmente com o renovado empenho por sair ao seu encontro, acolhê-las, confortá-las e aproximá-las do Senhor. É nossa responsabilidade gerar espaços e meios adequados para isto. Quero pedir-lhes também que neste ano da Misericórdia demos o devido lugar à penitência, com os meios e oferecimentos que melhor nos ajudem para isso.

Efetivamente, “examinar tudo” implica que devemos olhar com olhos de fé como acolhemos, vivemos, plasmados em uma espiritualidade, em um estilo de vida, em uma missão apostólica, o dom de nosso carisma. Devemos revisar com liberdade como vivemos a letra e o espírito de nossas Constituições, nossos modos e costumes, nossa maneira de viver a autoridade e a obediência, nossa maneira de entender e acompanhar a experiência vocacional, nossas relações fraternas e eclesiais. Nada deve ser excluído desse olhar profundo e evangélico, em sintonia com a tradição viva da Igreja e seus ensinamentos, como também em abertura às novidades genuínas que o Espírito suscita.

Com essa mesma disposição é que cada um pode fazer seu próprio exame de consciência: reconhecer as próprias faltas e pecados, recolher-se na misericórdia de Deus que sara e reconcilia, e com a liberdade que dá o Espírito Santo examinar sobre o que fundamentou seu próprio chamado e resposta, sua idoneidade e disposição para vivê-lo, sua generosidade para servir.

Nesse mesmo espírito e em docilidade à pedagogia divina, acredito que é oportuno revisar também as atitudes tidas neste último tempo. Como reagimos frente à dor? Soubemos acolher a Cruz? Como reagimos frente ao pecado e ao mal? Deixamo-nos conduzir pelo Espírito Santo, cujos frutos são «amor, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio de si», ou pelo mundo e homem velho, cujas obras são «impureza, libertinagem, ódios, discórdia, ciúmes, iras, rixas, divisões, dissensões e coisas semelhantes» (ver Gal 5,19-23)? Nossa medida tem que ser o Evangelho, nosso olhar e nosso coração têm que ser os de Jesus, sempre os de Jesus. O sincero desejo de ajudar, a reta intenção, o legítimo desejo de transparência, se não estiverem guiados por um olhar evangélico e apoiados no ensinamento da Igreja, que nos convida sempre à prudência, à reverência e à caridade com todas as pessoas, podem acabar causando ou aumentando os danos que se pretende combater.

Mas São Paulo nos exorta também a «ficar com o bom». Sabemos que tudo o que é bom procede de Deus, e por isso a Ele elevamos nossa ação de graças. Mas não esqueçamos que a gratidão implica, em primeiro lugar, reconhecer a generosidade com que Ele nos abençoou e abençoou a muitos através dos pobres vasos de barro que somos. Implica reconhecer os bens genuínos que recebemos dEle, e nos encarregarmos deles, fazê-los crescer, pô-los cada vez mais e melhor ao serviço dos outros.

Também é justo agradecer o esforço de muitos irmãos e irmãs na fé que, como «servos bons e fiéis», trabalharam e trabalham por multiplicar os dons recebidos do Senhor (ver Mt 25,14ss). Que tudo isso nos ajude a nos entregarmos com generosidade, procurando ter muito presente «que nem o que planta é algo, nem o que rega, só Deus que faz crescer. E o que planta e o que rega são uma mesma coisa; embora cada qual receberá o salário segundo seu próprio trabalho, já que somos colaboradores de Deus» (1Co 3,7-9).

Recentemente, há mais de um ano, compartilhava com vocês uma reflexão, que hoje queria trazer novamente à memória e ao coração: «O hoje santo João Paulo II nos chamou profeticamente “artesãos da reconciliação”. Não temos aí a chave espiritual para enfrentar o que vivemos? Um artesão conhece o material, com suas bondades e seus limites; é alguém que se compromete, que suja as mãos; é alguém que tem que trabalhar com paciência, serenidade, integrando inclusive as imperfeições do material para conseguir uma obra bela. Artesãos de reconciliação. E a reconciliação foi trazida para nós por Jesus. Ele é o Reconciliador e, como diz o Apóstolo, confiou-nos o ministério da reconciliação. Por isso irmãos, estou convencido de que hoje devemos acolher com particular empenho a exortação de São Paulo: “Em nome de Jesus Cristo lhes suplicamos, deixem-se reconciliar com Deus” (2Cor 5,20)».

Sim, este tem que ser um tempo forte de reconciliação, de caminhar na verdade e na caridade para fortalecer nossa comunhão e nosso serviço. Na reunião de superiores de 2015 tivemos uma experiência muito edificante, que hoje quero propor que todos façamos e aprofundemos: cada um foi compartilhando livremente que experiências tinha que perdoar e reconciliar em sua vida sodálite, e de que ações ou atitudes tinha que pedir perdão e ser reconciliado. Acredito que gerar espaços em nossas comunidades e grupos para compartilhar livremente, para abrir a mente e o coração na verdade e na caridade, para escutar e ser escutados, é uma prática que devemos cultivar com perseverança ao longo deste ano.

Como lhes vim propondo, acredito que, junto com a revisão e a reconciliação, este tempo tem que ser de verdadeira renovação. Não se trata de “inventar” algo novo, muito menos de negar o passado nem renegá-lo, mas sim de nos deixar purificar e renovar por Jesus Cristo, Aquele que «faz novas todas as coisas» (ver Ap 21,5).

Temos que fugir da tentação do criticismo que pode nascer da evidência que deixam as próprias feridas ou as alheias. Trata-se de avançar com paciência e profundidade a partir da perspectiva do que somos, daquilo que Deus nos deu de presente no carisma aprovado pela Igreja.

Devemos elevar nossa oração como o salmista, para pedir: «Criai em mim, oh Deus, um coração puro, renovai em meu interior um espírito firme» (Sal 50,10) para que assim possamos encarnar, testemunhar e anunciar o que o Senhor nos chamou a ser desde toda a eternidade. Também para que possamos estar abertos às realidades mutantes do mundo e da cultura, e fazer presente nelas de maneira encarnada e vital ao Senhor Jesus e seu Evangelho.

A Providência divina quis que iniciemos este tempo novo na vida de nossa comunidade e de nossa família espiritual coincidindo com o Jubileu da Misericórdia. É um presente muito grande que Deus nos deu, e que devemos entesourar e viver. Por isso, quero terminar estas reflexões com umas palavras pronunciadas pelo Papa Francisco em 21 de dezembro passado:

«As resistências, as fadigas e as quedas das pessoas e dos ministros representam também lições e ocasiões de crescimento e nunca de abatimento. São oportunidades para voltar para o essencial, que significa ter em conta a consciência que temos de nós mesmos, de Deus, do próximo, do sensus Ecclesiae e do sensus fidei.

Queria falar-lhes hoje deste voltar para o essencial, quando estamos iniciando a peregrinação do Ano Santo da Misericórdia, aberto pela Igreja há poucos dias, e que representa para ela e para todos nós um forte chamado à gratidão, à conversão, à renovação, à penitência e à reconciliação.

(…) que seja a misericórdia a guiar nossos passos, que inspire nossas reformas, que ilumine nossas decisões. Que seja o suporte magistral de nosso trabalho. Que seja quem nos ensine quando temos que ir adiante e quando devemos dar um passo atrás. Que seja quem nos faça ver a pequenez de nossos atos no grande plano de salvação de Deus e na majestade e no mistério de sua obra».

Que nossa Mãe Santa Maria nos ajude a guardar e meditar todas estas coisas no coração, e nos alente no esforço por ser cada vez mais como seu Filho.

No Senhor e de mãos dadas com nossa Mãe.

Sandro